1984 passou, estamos no século XXI e com Big Brother

05/03/21
Por: Robson Becker Loeck
robson.loeck@gmail.com

“1984” é o título do livro de Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo pseudônimo de George Orwell. Publicado em 1949, nele aparece o “Big Brother” (o Grande Irmão); sim, inspiração do jogo transmitido pela televisão.

Mas não é sobre um grupo de pessoas espontaneamente confinadas em um ambiente vigiado e com transmissão ao vivo que quero tratar. O intento é apresentar uma passassem do romance, na qual Orwell descreve os “proletas” (“massas desatendidas”; “enxame de gente”), que representam 85% da população e que vivem em precárias condições. Apesar disso, são eles os principais responsáveis pela geração da riqueza daquela sociedade e, quando não estão a trabalhar pesadamente e a cuidar da casa e dos filhos, dedicam seu tempo livre para disputas com os vizinhos e para apreciar: futebol, cerveja, filmes e jogos de azar.

Considerados “inferiores naturais”, os “proletas”, da mesma forma como se faz com os animais, devem ser mantidos dominados. O importante, aos dominantes da sociedade, é que somente eles trabalhem e procriem. Largados à própria sorte, nascem e crescem nas sarjetas, começam a trabalhar cedo e morrem relativamente jovens. A eles é negado possuir ideias políticas sólidas, tão somente é permitido terem em mente um patriotismo primitivo, que é evocado quando necessário, para fazê-los aceitar horários de trabalhos mais longos e menos acesso à alimentação. Por sua posição na sociedade, caso sintam necessidade, é permitido aos “proletas” terem e praticarem uma religião.

Volta e meia, a polícia identifica e elimina prováveis pensadores e contestadores da ordem estabelecida. Quanto a criminalidade, por ser praticada em áreas específicas e afetar somente aos “proletas”, não é combatida com a mesma intensidade e os faz conviver no dia-a-dia com ladrões, bandidos, traficantes de drogas e todos os tipos de trambiqueiros.

Com a inexistência de sentimento ou ação de revolta, ocorre ao personagem principal, Winston Smith, o seguinte: se os “proletas” se conscientizassem da sua força, bastaria “que se sublevassem e se sacudissem, como um cavalo se sacode para expulsar as moscas”. Entretanto, quando por um ou outro motivo levantam a sua voz, o fazem para coisas sem importância (queixas específicas e menores), levando Smith a refletir que “enquanto eles não se conscientizarem, não serão rebeldes autênticos e, enquanto não se rebelarem, não têm como se conscientizar”.

Da “real” ficção para a tão “fantástica” e triste realidade das sociedades atuais, as provocações de Smith permitem questionar o que é consciência e como despertá-la nas massas no século XXI. O que me atrevo a dizer àqueles que se aventurarem a folhear as páginas do atualíssimo “1984” é que, ao final, provavelmente terão aguçada a sua consciência para enfrentar o “Big Brother”, seja em uma sociedade democrática ou totalitária.

Robson Becker Loeck é sociólogo, graduado e mestre em ciências sociais, especialista em política.

Foto: Pixabay