Curiosidades sobre o rural em Pelotas

15/02/22
Por: Robson Becker Loeck
robson.loeck@gmail.com

Robson Becker Loeck (*)

Há muitas curiosidades sobre o rural em Pelotas, algumas mais comentadas e outras nem tanto.

Dias atrás, conversava com uma pessoa sobre a imigração europeia e o assunto foi parar no futebol. Dizia ela que, no passado, a criação de uma liga colonial envolvendo times de várias localidades nunca foi só futebol. Tudo tinha sido um pretexto para propiciar a interação entre os moradores do rural, que naquela época não tinham acesso a luz, ao telefone e a televisão. A realização das partidas e a movimentação dos jogadores e dos torcedores possibilitava que, para além do confronto futebolístico, outros assuntos fossem tratados durante os deslocamentos e nos “campos dos times”: os custos de produção; a venda dos produtos agrícolas; a compra e venda de maquinários, etc.

Interessante também, ao realizar conversas no urbano, é perceber o número de pessoas desavisadas de que há fome no interior no município. Além disso, muitas recebem com perplexidade e curiosidade a informação de que aqui, pertinho delas, vivem indígenas e quilombolas.

Sim, por mais paradoxal que possa parecer, é isso mesmo. Tem gente no rural com dificuldade de realizar uma digna refeição. E isso acontece devido ao fato de não possuírem área própria adequada para, no mínimo, realizarem agricultura de subsistência, sobrevivendo apenas da venda da sua força de trabalho para outras famílias ou atividades no rural. Os números oficiais da Secretaria de Avaliação e Gestão da Informação, do Ministério da Cidadania, em novembro de 2021, apontavam 400 famílias registradas no Cadastro Único e 256 recebedoras do Bolsa Família.

Quanto a presença dos indígenas e quilombolas, a questão é histórica. Eram os indígenas que por aqui estavam antes dos portugueses, com a presença das etnias Charrua, Minuano e Guarani. Hoje, os Guarani estão na aldeia Kapi’i Ovy (Capim Verde), localizada na Colônia Santa Helena, e indígenas da etnia Kaingang, em 2016, foram assentados pela Prefeitura na Colônia Santa Eulália, constituindo a aldeia Gyró (Pelota de Barro). Já os quilombolas advêm do processo de escravização a que foram submetidos os negros africanos. Os que conseguiam escapar das charqueadas e das fazendas da região passavam a utilizar locais no interior de Pelotas como “esconderijos” e para a produção e reprodução da vida social. Atualmente, quatro comunidades são reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares como de remanescentes de quilombos: Algodão, Alto do Caixão, Cerrito Alegre e Vó Elvira.

No rural, a organização social dos agricultores familiares não pode ser desconsiderada. Além dos grupos quilombolas, existem outros grupos informais e formais em funcionamento, cada qual com sua história e objetivos. Os grupos formalizados são os seguintes: Associação Comunitária Quilombola do Alto do Caixão; Associação Comunitária Quilombola do Algodão; Associação dos Feirantes Pescadores Artesanais de Pelotas; Associação dos Pescadores Feirantes da Balsa; Associação dos Produtores de Leite da Encosta da Serra do Sudeste; Associação dos Produtores de Pêssego da Região de Pelotas; Associação Quilombola Cerrito Alegre; Cooperativa dos Apicultores e Fruticultores da Zona Sul; Cooperativa dos Produtores Agrícolas do Monte Bonito; e Cooperativa Sul Ecológica.

É possível então perceber, tendo como parâmetro as organizações, quão sortida é a coletividade no interior de Pelotas. E isso se deve a política de branqueamento executada no final do século XIX, que acabou por “trazer”, para “substituir” os negros na produção de alimentos, imigrantes vindos de várias regiões da Europa.

O que temos hoje no interior de Pelotas é a convivência de pessoas, de diferentes etnias, cada qual buscando o seu modo sobreviver, praticar e preservar a sua cultura. O são, conforme o último censo do IBGE (2010), em número de 22.082 (7.335 famílias), distribuídas em oito distritos: Colônia Z3 (2º), Cerrito Alegre (3º), Triunfo (4º), Cascata (5º), Santa Silvana (6º), Quilombo (7º), Rincão da Cruz (8º) e Monte Bonito (9º).

Esse último censo também permite visualizar que, considerando somente o rural, caso todos os homens (51,40%) resolvessem “se casar” com o sexo oposto, isso não seria possível, pois faltariam mulheres (48,60%).

(*) Robson Becker Loeck é sociólogo e extensionista rural no Escritório Municipal da Emater/RS-Ascar de Pelotas.