Curiosidades sobre o rural em Pelotas - II

17/05/22
Por: Robson Becker Loeck
robson.loeck@gmail.com

O texto anterior, “Curiosidades sobre o rural em Pelotas” (https://jornalterraecampo.com.br/noticias/noticia/curiosidades-sobre-o-rural-em-pelotas), trazia alguns números e este inicia com mais alguns.

No interior do munícipio de Pelotas existem 6.794 domicílios (IBGE 2010), contudo, não são em todos que são realizadas atividades agropecuárias. O Censo Agropecuário 2017 mostra que, de 2006 a 2017, ocorreu a diminuição de 899 estabelecimentos agropecuários, ou seja, passaram de 3.596 para 2.697, o que representa uma redução de 25%.

O último Censo Agropecuário apresenta outras informações interessantes. Uma delas é que 2.617 estabelecimentos agropecuários em Pelotas possuem áreas inferiores a 100 hectares, o que demonstra a presença da agricultura familiar no interior do município. Do total, 80 possuem áreas maiores e apenas 04 possuem mais de 2.500 hectares.

O Censo de 2017, ainda que seus números sejam contestados por alguns, apresenta que não houve aumento do acesso, por parte dos estabelecimentos rurais, a assistência técnica. Ao contrário, ocorreu uma diminuição e, naquele momento, 960 estabelecimentos não a recebiam. Quanto a forma de obtenção de informações, a televisão foi apontada em 1.659 estabelecimentos e o rádio em 1.264. A internet era acessada como fonte de informação em 496, o que é um indicativo da dificuldade de sua utilização no rural.

Os indígenas e os quilombolas foram citados no primeiro texto e acabaram por gerar, no particular, pedidos de mais informações. Aproveita-se, então, para dizer que apesar de serem certificadas pela Fundação Cultural Palmares, as quatro comunidades quilombolas pelotenses não possuem suas terras demarcadas territorialmente pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Diferentemente do que o imaginário pode suscitar, aproximadamente 1.377 quilombolas não vivem e produzem juntos em áreas delimitadas. Estão espalhados em localidades rurais, possuindo, como no caso do Quilombo do Algodão e do Alto do Caixão, as sedes das suas Associações como ponto de referência e de encontro coletivo.

Da mesma forma, não há territórios indígenas em Pelotas. O que existe é a presença de três famílias (9 pessoas) da etnia Guarani no Parque Municipal Farroupilha, localizado na Colônia Santa Helena, que vivem em uma área de 0,6 hectares. Já na Colônia Santa Eulália, numa área de 7,5 hectares declarada por decreto, pela Prefeitura, como de Especial Interesse Cultural e Social, foram assentados em torno de 50 indígenas da etnia Kaingang.

As aldeias, principalmente a Kaingang, recebem famílias de outras cidades. Algumas que chegam, acabam “ficando”, ao mesmo tempo que outras por aqui já há algum tempo, decidem procurar por novos lugares, num “rodizio” que é absolutamente “normal” em termos culturais. Importante dizer que às vezes indígenas que comercializam artesanato, por exemplo, em frente do Terminal Rodoviário ou no Calçadão, “não são de Pelotas” e estão aqui somente de passagem, sem possuir vínculos com as aldeias locais.

Os quilombolas também produzem artesanato, no entanto, a maioria obtém renda trabalhando em propriedades que não as suas, em geral, nas que produzem tabaco e pêssego. O corte de mato também é uma atividade em que atuam. Cabe frisar que a maioria não possui terra para a realização de atividades agropecuárias e, as que possuem, se dedicam a produção de alimentos para subsistência e venda do excedente. Atualmente, 12 famílias quilombolas “entregam” alimentos regularmente à Prefeitura de Pelotas via Programa de Aquisição de Alimentos – PAA.

(*) Robson Becker Loeck é sociólogo e extensionista rural no Escritório Municipal da Emater/RS-Ascar de Pelotas.

Foto: Robson Loeck