Dia das “Carolinas”

09/03/21
Por: Glaucilene Porciúncula
glaucileneporciuncula@gmail.com

Há poucos dias atrás, a escritora Carolina Maria de Jesus recebeu, merecidamente, o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ). Ela é a autora do livro “Quarto de Despejo”, publicado em 1960, mas que ainda é um relato atual das mulheres que lutam contra a fome e joga na cara do leitor as agruras da realidade sem filtro de quem vive na constante busca pela sobrevivência.

Essa história lhe parece familiar? Em decorrência da crise econômica em que entramos, desde 2015, o número de pessoas vivendo na extrema pobreza só tem aumentado em nosso país. Somado a isso, vivemos um momento surreal de pandemia em que o Governo Federal nada faz para conter a disseminação do vírus, e, como consequência, temos cada vez mais mortes, desempregos e miséria.

Nesse mês de março em que comemoramos o Dia da Mulher, somos convidados a refletir nas tantas famílias chefiadas por mulheres, as quais já sofrem com a jornada dupla de trabalho, com os salários inferiores aos dos homens, e com outras tantas vulnerabilidades derivadas da questão de gênero e que, agora, são agravadas pela atual conjuntura. Em meio a todas essas dificuldades, nós, mulheres brasileiras precisamos recorrer ao nosso lado “Carolina”: vencendo um dia de cada vez e, muitas vezes, contando apenas com a força de vontade, a fé em Deus e com o ar dos próprios pulmões.

Embora já tenhamos conquistado muitos direitos como educação, trabalho, licença maternidade, voto e poucos mais, ainda falta muita conscientização por parte da população como um todo, para que possamos viver num mundo em que uma mulher tenha as mesmas oportunidades dos homens. E digo isso, porque não basta pensarmos apenas em leis para garantirmos direitos, precisamos eliminar preconceitos e reconhecer as fragilidades que o mundo nos impõe. Ou será que só as mulheres entendem o quanto é assustador descer de um ônibus e caminhar da parada de ônibus até chegar em casa quando está escuro? Citando apenas um exemplo.

Enquanto nos identificarmos com a história de Carolina em seu famoso livro, ainda haverá lutas a serem travadas por direitos a serem conquistados. Afinal, todo o ser humano, seja qual for o gênero, deveria ter garantidas condições dignas e igualitárias de vida, para que mais ninguém viva em condições tão desiguais e precárias a ponto de chamar o próprio lar de Quarto de Despejo.