Era uma vez...

28/08/21
Por: Glaucilene Porciúncula
glaucileneporciuncula@gmail.com

Escolas com infraestruturas exemplares, recursos financeiros suficientes, alunos calmos e silenciosos, ambientes higienizados a cada turno e distanciamento entre classes, alunos e professores. Não, não estamos falando de escolas particulares. Até porque os alunos são crianças e adolescentes e, independente da classe social, isso quer dizer barulho, agito e aglomeração. Estamos falando das reportagens vinculadas pelos noticiários sobre a volta às aulas presenciais de escolas públicas. Nem nos sonhos mais delirantes das equipes diretivas das escolas, elas iriam imaginar semelhante paraíso.

Crianças não conseguem ficar paradas, não tocar no coleguinha, respeitar distanciamento das “tias” e os adolescentes nem sempre fazem questão disso. Mas isso é chover no molhado, a novidade é esperar que as pessoas acreditem que as escolas públicas terão álcool em gel, material de limpeza e funcionários suficientes para a realização da limpeza durante os próximos meses (ou podemos falar em anos?) por mais de uma vez por dia. Não faz muito tempo, escolas públicas de nosso estado não tinham dinheiro para comprar papel higiênico!!

Contamos com os professores que recebem um dos piores salários do país e que, mesmo assim, cumprem seu trabalho diário de forma hercúlea, prova disso foi o reconhecimento com as melhores notas de escolas públicas do ENEM 2019. Mas isso não muda a situação de miserabilidade e endividamento dos educadores do magistério público estadual, a qual teve sua origem nos 7 anos sem reajuste nos seus salários e vem tornando, cada vez mais difícil, a manutenção dessa “mão de obra barata” e que já se encontra adoecida.

As mudanças provocadas pela pandemia desnudam a situação precária das escolas que, com um corpo docente cada vez mais enxuto, sobrecarrega ainda mais os trabalhadores da educação. Afinal, como será articulado esse tão falado “sistema híbrido de ensino”: Será que os professores que restam “no front de batalha” são capazes de se duplicarem para preparar aulas presenciais e à distância ao mesmo tempo que ministram aulas presenciais e à distância?

Que os estudantes estão felizes por retornar ao sistema presencial de ensino não restam dúvidas, o questionamento que fica é até quando fecharemos os olhos para esse sucateamento a que a rede pública educacional foi entregue, sem exigirmos que a Constituição Federal seja cumprida e que nossos filhos possam contar com educação e educação de qualidade? Porque se seguirmos esse faz de conta em que as escolas fingem que têm o suficiente em infraestrutura e em recursos humanos estaremos privatizando o saber e negando à maioria da população o acesso ao ensino.

Ainda dá tempo de reverter esse quadro. Enquanto existirem as paredes das escolas, professores e funcionários contratados e uma lei que ampare a educação pública, ainda temos pelo que lutar. Só não podemos esperar que esse mundo imaginário, onde as escolas têm verbas que nunca tiveram, seja concretizado por um simples estalar de dedos. Deixemos as fantasias para as aulas de literatura (isso se elas resistirem às reformas do Ensino Médio) e tratemos de políticas públicas com o devido respeito.

 Foto: Pixabay