Nossa História

09/10/20
Por: Glaucilene Porciúncula
glaucileneporciuncula@gmail.com

A vida nunca foi fácil para ela. Nascida numa família de muitos filhos, de poucas posses e em meio a muito trabalho, aprendeu, de pequena, a lida do campo. Ia cedinho para a lavoura com o pai e os irmãos e só voltavam com o entardecer. Contudo era chamada de fiasquenta pela família porque reclamava muito, e logo se percebeu que a saúde era frágil. Então, foi obrigada a sair de casa para trabalhar numa casa de família como babá. Ainda não tinha 12 anos. Chorou. Não queria ir. Mas a família precisava que todos trabalhassem e, para a lavoura, a menina não servia.

Com o tempo foi se afeiçoando à vida nova. Conheceu um conforto que nunca teve e a patroa a tratava bem. Conta que foi até feliz. Mas, na época em que as irmãs mais velhas casaram, ela precisou voltar para casa para cuidar dos irmãos pequenos. Novo choro. Tinha por volta dos 16 anos e estava aprendendo que não teria muitas escolhas na vida.

Foi assim que o tempo foi se desenrolando, entre um acontecimento que levou a outro, cresceu, começou a trabalhar fazendo faxina, casou e teve dois filhos que criou com muito amor. Passou muito dificuldade com o marido de gênio difícil, principalmente depois que ele se envolveu no alcoolismo. Nem quando a doença o acamou, ele se tornou manso. Mesmo assim, cuidou dele até o último suspiro.

A vida de luta não tirou o seu sorriso doce, quase tímido, e sua disposição para conversar. E como gosta de conversar! No sotaque pomerano que suas palavras carregam, logo se adivinha a origem do interior. Com ela também encontramos uma grande sabedoria para lidar com os mais variados problemas, a qual ela não se importa de compartilhar. Certamente nem percebe o valor imenso de seus conselhos provindos da experiência que só o tempo é capaz de conceder.

Muitos a conhecem como tia, vizinha, avó... ela é alguma parente, ou conhecida, ou amiga. Ela é aquela senhora que algumas pessoas não dão importância, mas que, para outras, ela é o sorriso amigo em meio a multidão, a calmaria na tempestade, é o exemplo de dever cumprido ao alvorecer. Ela é um pouco da história de cada mulher que, assim como nós, também veio do interior e um pouco de cada uma que conhecemos que também precisou enterrar alguns sonhos e lutar algumas, ou muitas, batalhas sem perder a alegria de viver.

Acabamos por nos unir, dessa forma, por sermos o entrelaçamento de todas as histórias que se perpassam e se complementam, pois em todas elas temos um pouco de nós e todas elas têm um pouco de si em nossas histórias.

Foto: Pixabay