Palavrório noturno

23/10/20
Por: Glaucilene Porciúncula
glaucileneporciuncula@gmail.com

Todo mundo conhece alguém que fala dormindo. Sobretudo se tem irmãos, já que metade das crianças entre 3 e 10 anos falam durante o sono, é muito provável que, alguma vez, você tenha ouvido o seu irmão, ou sua irmã, pronunciar algumas palavras durante a noite ou contar que você fez isso. Poucas pesquisas foram feitas nesse campo. Talvez por não se tratar oficialmente de um distúrbio.

O que é muito recorrente é a conversa de que podemos descobrir os segredos de quem fala dormindo. Mas, segundo artigo publicado na revista “Sleep Medicine”, especialistas afirmam que o que dizemos não faz nenhum sentido pois não refletem nossos pensamentos ou memórias. Depois dessa notícia, podemos dormir tranquilos.

Mesmo assim, há quem ensine simpatias e feitiços para “tirar” dos dorminhocos falantes a informação desejada. Essas práticas, embora sejam hoje desnecessárias com o advento do celular, “caixinha” de onde se descobrem nossos segredos, ainda são repassadas entre os mais afeitos às simpatias antigas. Sem muito sucesso, mas tem quem afirme que funciona.

O problema é quando o palavreado solto ao acaso durante nosso mais prestimoso descanso teima em coincidir com alguma palavra que faça sentido na cabeça de quem está ouvindo. Foi o que aconteceu com um produtor, aqui da região, o Seu Everaldo, que salvou uma plantação inteira, depois que resolveu levar a sério o que ouvia da sua esposa. Conta ele que numa noite em que ele demorou para dormir, ouviu sua senhora falar “falta cálcio”, assim, do nada, e ele achou que fosse um sinal. No outro dia, foi logo pegar uma amostra de terra para mandar para a análise e pronto, descobriu o mistério da lavoura estar produzindo tão mal, era falta de cálcio no solo. Depois disso, ele deixa um caderninho do lado da cama para anotar tudo o que escuta da mulher.

Já um vizinho do Seu Everaldo, inventou de contar essa história num almoço com a família, e a mãe dele, a Dona Neuza, começou a ficar preocupada com o que escuta do marido no meio da noite: faz juras de amor, elogios, promessas e fala galanteador só não se sabe com quem. Numa madrugada em que voltava do banheiro, não resistiu a curiosidade e cutucou o homem perguntando com quem, afinal, ele falava, mas ele muito esperto, sabendo que a mulher já dormia de orelha em pé, disse com todo o carinho: “é sempre contigo, minha nega”.

Por via das dúvidas, precisamos ter em mente que hora de dormir não é hora para ficar atento ao que se diz e muito menos ao que se ouve. O que aconteceu com Seu Everaldo, certamente, foi um evento isolado. Vai por mim, Dona Neuza, desse mato não deve sair coelho, não. O melhor é acreditar nos pesquisadores e não dar crédito para as conversações noturnas do seu velho.