Tem “índio” em Pelotas!

11/02/20
Por: Robson Becker Loeck
robson.loeck@gmail.com

No segundo semestre de 2015, famílias indígenas da etnia Kaingang, oriundas de Chapecó/SC, passaram a ocupar as margens da avenida Presidente João Goulart, no trecho em frente ao Terminal Rodoviário de Pelotas. Visíveis, despertaram sentimentos e o interesse de várias instituições, políticos, veículos de comunicação e, por conseguinte, do Poder Público.

A partir de então, não foi incomum ouvir pelotenses dizerem que “agora Pelotas tem índio”. Mas, apesar de todas as possíveis ressalvas explicativas para a ocorrência dessa percepção, é valido lançar mão do Almanaque do Bicentenário de Pelotas e do artigo do professor Rafael Guedes Milheira, intitulado Pelotas: 2.500 anos de história indígena, para demonstrar o seu equivoco, pois como o próprio título indica, a presença indígena na região é bem anterior ao período da colonização.

Importante também dizer que estudos indicam a prevalência no passado das etnias Charrua e Minuano nas áreas alagadiças e que, conforme a datação de materiais encontrados no interior de Pelotas, a presença de indígenas Guarani já se dava a mais de 500 anos A.P. (Anos antes do Presente). Diga-se de passagem, os Guarani continuam no município e, segundo relatos da vizinhança, valem-se há uns 40 anos de uma pequena área (cerca de 0,6 ha) na Colônia Santa Helena, 8º Distrito, que intitulam de Kapi’i Ovy (Capim Verde). Já os Kaingang conquistaram junto à prefeitura de Pelotas, em 2016, uma área de 7,5 ha na Colônia Santa Eulália, 5º Distrito, reconhecida como de Especial Interesse Cultural e Social, na qual constituíram a Comunidade Gyró (Pelota de Barro).

Enquanto prestadora do serviço oficial de assistência técnica e extensão rural e social no Rio Grande do Sul (RS), a Emater/RS-Ascar iniciou o desafio de atuar com os povos indígenas no Estado em 1999 e, em Pelotas, no ano de 2011, na referida comunidade Guarani. De lá pra cá, juntamente com a respectiva pasta governamental responsável pelos povos indígenas no RS, atualmente, a Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (SEAPDR), passou a desenvolver uma série de ações com o intuito de melhorar a qualidade de vida das famílias indígenas, considerando suas especificidades étnicas e culturais. Assim, através do diálogo com as famílias indígenas, buscando conciliar o conhecimento técnico e o conhecimento tradicional, foram executados projetos de etnodesenvolvimento para atender as necessidades e contribuir para o projeto futuro das famílias. Kits de artesanato, ferramentas e utensílios para o trabalho na agricultura (pás, lonas, adubo orgânico, sementes de milho e feijão, etc.) também foram disponibilizados.

Cabe, aliás, frisar a importância do artesanato, que além de expressar a identidade cultural de cada uma das etnias Guarani e Kaingang, também representa a principal fonte de sua sobrevivência, somada às práticas agropecuárias para a subsistência, haja vista a pequena quantidade de terras que possuem à disposição. Nesse sentido, a Emater/RS-Ascar tem garantido o acesso de artesã(o)s indígenas em espaços governamentais de feiras regionais e locais, como, por exemplo, a Fenadoce, a Expofeira, a Festa do Morango e a Festa da Colheita do Pêssego.

As famílias indígenas vivem em situação de vulnerabilidade social, pois não têm assegurados os seus direitos constitucionais, enquanto culturalmente diferenciados. Atualmente, o seu acesso às políticas públicas se dá enquanto cidadã(o) brasileiro e/ou agricultor(a), sendo possível e fundamental devido ao trabalho em parceria do Poder Público, em especial, com a Secretaria Municipal de Assistência Social (SAS), com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Rural (SDR), com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), com a 3ª Coordenadoria de Saúde do Rio Grande do Sul (3ª CRS), com a Embrapa, com a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e com a Fundação Nacional do Índio (Funai).

Com a Cáritas, o trabalho conjunto viabilizou a primeira Semana Cultural Kaingang, proposta pelos próprios indígenas com o intuito de apresentar aos pelotenses a história da comunidade e a sua cultura. Movimento muito importante e que foi reforçado em um encontro no Salão da Comunidade da Colônia Maciel, no qual a SMS e a Emater/RS-Ascar ofertaram uma palestra sobre a cultura das etnias Guarani e Kaingang, seguida de uma roda de conversa com profissionais das áreas da educação e da saúde atuantes nas comunidades.

Às famílias da Kapi’i Ovy e da Gyró, por meio da Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater) e da execução da Emater/RS-Ascar, também foi disponibilizado a participação no Programa de Fomento às Atividades Produtivas Rurais, que incentiva práticas laborais, sejam elas agropecuárias, contribuindo para a sua segurança alimentar, ou parao acréscimo da renda familiar, como também, proporciona a participação em cursos de formação.

De certo, há ainda muito o que se fazer em prol das famílias para que conquistem maior autonomia e as breves linhas acima apontam a contribuição da extensão rural para isso. Para finalizar, é oportuno ressaltar que o artesanato aqui produzido pode ser apreciado e adquirido diretamente com os indígenas no Calçadão, nas praças e nas ruas de nossa cidade, contudo, não só com os “nossos”, pois não é raro recebermos a visita de indígenas de outras regiões do Estado, e, em maior número, dos municípios de Canguçu e de Rio Grande, nos quais também “tem índio”.

Robson Becker Loeck (sociólogo), Márcio Carús Guedes (engenheiro agrônomo), Mariana de Andrade Soares (antropóloga) e Regina Gonçalves Medeiros (economista doméstico) são extensionistas rurais na Emater/RS-Ascar.