Vencer na vida: o discurso de alguns palestrantes e pregadores

11/05/21
Por: Robson Becker Loeck
robson.loeck@gmail.com

A ideia de escrever estas linhas surgiu depois de abrir a minha caixa de correspondência e ler um jornal de uma igreja que nela foi colocado. Ao terminar a leitura despropositada e movida pela curiosidade, fiquei embasbacado. Não pelo fato de não conhecer um pouco sobre as religiões e, por exemplo, a famosa análise de Max Weber em “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, mas, sim, por pensar: “puxa vida, em pleno século XXI, isso ainda faz a cabeça das pessoas!”.

Pensativo por um breve momento, dei-me conta que sim, que é a mais pura realidade, até mesmo porque, caso não fosse, aquele jornal não teria sido impresso e, muito menos, eu o teria lido. Mas, para fazer jus ao título do artigo, antes de comentar sobre o seu conteúdo, gostaria de falar sobre alguns palestrantes de autoajuda e da similaridade dos seus discursos com os discursos também utilizados por alguns pregadores religiosos, as quais já adianto, são duas: a defesa da sociedade capitalista e o sucesso como uma questão individual.

Desde a graduação, em meados da década de 90, comecei a assistir palestras de autoajuda, e ainda hoje, assisto, quando não tenho escapatória, ainda que contrariado. Posso dizer que a “coisa é forte” e não é para “os fracos”. Para se ter uma ideia, não foi à toa que Barack Obama, na campanha presidencial dos Estados Unidos de 2008, usou o slogan "yes, we can". Se funciona na política, imagina então no mundo empresarial e do emprego, onde boa parte dos palestrantes de autoajuda, em geral para um público extenso, dizem que todos nós podemos fazer o que quisermos, resumindo: que para vencer na vida basta querer.

Outros tantos pregadores religiosos não ficam atrás, pois o discurso é muito parecido. Para eles, o sucesso advém do ato de frequentar a igreja e de se “encontrar” com Deus. Para se ter uma ideia, em um dos vários depoimentos do referido jornal, aliás muito parecidos, uma pessoa com o casamento fracassado, desempregada e cheia de dívidas foi à igreja, ouviu a pregação e resolveu todos os seus problemas. Teria superado todas as suas dificuldades e passado por uma mudança drástica pois, vejam só, de empregada se tornou empregadora, tendo agora casa própria, imóveis para aluguéis e dois carros importados na garagem.

Para o palestrante de autoajuda, importante ressaltar, se faz necessário entender o funcionamento do “deus” mercado e acreditar em si mesmo para a obtenção do sucesso. Já para o pregador religioso é necessário ir à igreja para se encontrar consigo mesmo e conhecer a palavra de Deus, para depois conquistar um bom resultado no mercado. E algo muito interessante, numa perspectiva de negócio, é que o insucesso nunca pode ser creditado a ambos, pois eles não têm culpa, respectivamente, de o mercado ainda não ter sido bem assimilado e de Deus ainda não ter penetrado, de fato, na vida da pessoa.

Essas abordagens fazem muita gente acreditar que o sucesso está atrelado somente ao aspecto econômico da vida e que não atingi-lo é um problema de ordem individual, ou seja, somente seu e de mais ninguém. É um perigo se deparar com pessoas empolgadas dentro de um auditório lotado, geralmente um evento patrocinado pelo empregador para motivar seus empregados, pois é um indicativo de que muitas expectativas não serão concretizadas, levando muitos ao sentimento de culpa pelo insucesso e, consequentemente, à depressão. Da mesma forma, o mesmo sentimento pode aflorar em pessoas que ficam à mercê de um pregador e, mesmo depois de ofertar recursos financeiros a sua igreja, não veem a sua vida deslanchar.

Interessante também é perceber que, apesar de defenderem e incentivarem o sucesso econômico e a sociedade individualista e capitalista, muitos palestrantes de autoajuda e pregadores religiosos dependem do dinheiro de quem lhes escuta. E assim o fazem, a princípio, sem culpa e sem que qualquer culpa possa lhes ser creditada. Não é um baita negócio?

Ao mesmo tempo, importante que seja dito, seus negócios não geram resultados econômicos para a coletividade e muito menos para os seus clientes individualmente, pois prova disso é o número de pessoas pobres na sociedade ser relativamente bem maior do que ao de pessoas ricas, o que demonstra a sua ineficácia quanto aos resultados prometidos.

Que Deus nos ajude, em pleno século XXI, a enfrentar a fé no mercado e a compra da fé!

 

Robson Becker Loeck é sociólogo, graduado e mestre em ciências sociais, especialista em política.

Foto: Pixabay